Iaualapitis

povo indígena Yawalapiti
 Nota: Se procura pela língua da família lingüística aruaque, falada pelos Iaualapitis, veja Língua iaualapiti.

Os iaualapitis, ou yawalapitis são um povo indígena que habita a região do Alto Xingu, no Parque Indígena do Xingu, estado do Mato Grosso, Brasil.[2][1]Sua língua pertence à família linguística arawak, compartilham a área com diversos outros grupos étnicos, como os kuikuros, kamayurás e os mehinakos, com os quais mantêm relações de troca, alianças matrimoniais e participação em rituais intertribais.

Yawalapiti
Mulheres Yawalapitis durante a Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília (DF), 2019
População total

309

Regiões com população significativa
 Brasil (MT) 309 (Siasi/Sesai, 2020)[1]
Línguas
Português
Língua yawalapíti
Língua mehinako
Língua wauja
Língua kuikuro
Língua kalapálo
Língua kamaiurá
Religiões
Mitologia yawalapiti (Que compartilha o repertório cosmológico alto-xinguano)[1]

A organização social dos yawalapitis é baseada em uma estrutura comunitária, na qual a transmissão oral de conhecimentos desempenha um papel central. Suas práticas culturais incluem rituais como o Kuarup, cerimônia funerária de grande importância, e o huka-huka, uma forma tradicional de luta corporal. A pintura corporal e a confecção de artefatos também são elementos fundamentais da identidade do grupo.[3]

Ao longo do século XX, os yawalapitis sofreram um declínio populacional significativo devido a epidemias e ao contato com a sociedade não indígena. A partir da criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, e da atuação de lideranças como o cacique Aritana Yawalapiti, foram implementadas iniciativas de proteção territorial e revitalização cultural, contribuindo para o crescimento populacional e a preservação de suas tradições. Atualmente, os yawalapitis enfrentam desafios como a ameaça ao seu território e o risco de desaparecimento de sua língua, mas, seguem empenhados na valorização de sua cultura e na defesa de seus direitos.[4][5]

Características gerais

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Demografia

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Os levantamentos mostram um aumento populacional, conforme os dados da tabela abaixo:

Ano População Referência
1948 28 Oberg (1953:44)[1]
1954 25 ISA (2024)[1]
1963 41 ISA (2024)[1]
1970 65 (Agostinho 1972:259-260)[1]
2002 208 Unifesp
2011 150 (IPEAX, 2011)[6]
2014 262 (Siasi/Sesai, 2014)[7]
2020 309 ISA (2024)[1]

História

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História do Povo

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De acordo com a tradição oral, a primeira aldeia dos yawalapitis localizava-se na região do Médio Xingu e era chamada de Yawalapíti. Posteriormente, foram fundadas as aldeias Yakunipü, ao norte da aldeia Aweti, e Üuya (Lagoa), próxima ao atual Posto Leonardo. Os yawalapitis também habitaram a região de Amakapuku, a três quilômetros ao sul desse posto, e posteriormente estabeleceram a aldeia Tipa Tipa (Rio das Pedras), onde atualmente residem.[8]

A estrutura das aldeias refletia a organização social dos yawalapitis, com casas comunais dispostas em círculo e um pé de tucum de aproximadamente 30 metros de altura no centro, o que originou a denominação "Povo do tucum". Artefatos como cerâmicas, machados de pedra e marcas humanas ainda são encontrados nos antigos assentamentos.[8]

Nessas antigas aldeias, os yawalapitis passaram por situações difíceis, tendo sua população reduzida a 8 pessoas por feitiços, ou seja, mortes atribuídas a causas sobrenaturais, de acordo com as crenças do povo. Para os yawalapitis, algumas doenças e mortes não ocorrem por causas naturais, mas podem ser resultado de forças sobrenaturais ligadas à feitiçaria. Um ano após a tragédia, o cacique Aritana foi assassinado por guerreiros awetý, levando alguns a se refugiarem entre os kuikuros, mehinakos e kamaiurás.[9]

Durante esse período de reorganização, Orlando Villas Bôas desempenhou um papel crucial ao facilitar a reunificação das famílias yawalapiti. Inicialmente, o contato foi mediado por Nahu Kuikuro, que havia aprendido português e comunicou ao sertanista sobre a presença de Kanátu e Sariruá na aldeia Kuikuro. Orlando então organizou expedições para localizar outros yawalapitis dispersos entre os mehinako e kamaiurá, promovendo reencontros entre parentes.[9]

Após a reunião dos yawalapitis, Villas Bôas incentivou casamentos para reforçar a coesão do grupo. Kanátu casou-se com Teporí Kamayurá, filha do cacique Kutamapü, enquanto outros membros da comunidade também se uniram a parceiros de diferentes etnias. Esses casamentos ajudaram na recuperação demográfica dos yawalapiti, mas também impactaram a transmissão da língua e das tradições culturais. A primeira criança nascida após a reunificação foi Aritana, neto do cacique Aritana, morto em um conflito anterior. Orlando emocionado com o nascimento, celebrou o evento como um símbolo da continuidade do povo yawalapiti.[10] Porém, Aritana faleceu de COVID-19 em 2021.[3]

O indigenista queria ver o povo crescer novamente e ver a alegria da população. Desde este momento, a população cresceu consideravelmente, chegando atualmente a aproximadamente 305 pessoas.[10]

Wátsu, prima de Aritana Yawalapiti, desapareceu na floresta em 2016 e nunca foi encontrada. Segundo os yawalapitis, ela encantou-se e tornou-se paʎɨ́ri, uma entidade ligada à natureza, conforme a cosmologia do povo.[8]

Práticas Culturais

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As novas gerações yawalapiti continuam a preservar práticas culturais ancestrais, como danças, pintura corporal, construção de casas tradicionais, pesca com arco e flecha, além da prática do huka-huka e do aprendizado da medicina tradicional com pajés e raizeiros. Depois de 2018, diversas tradições foram revitalizadas por meio do Projeto de Revitalização da Cultura Yawalapiti, promovido pelo Instituto Socioambiental (ISA) com recursos do Fundo Amazônia. Essa revitalização incentivou a confecção de adornos, flechas ornamentadas, canoas, cestos e pentes, além da valorização da transmissão oral de histórias, da música, das brincadeiras infantis e de rituais como a reclusão, as reuniões na casa dos homens e do aquecimento com óleo de pequi e tintas naturais.[3]

As Pinturas

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As pinturas corporais yawalapiti estão profundamente ligadas a cosmologia, identidade e organização social da etnia. De acordo com a tradição, elas surgiram no primeiro ritual Kuarup, realizado por Kami (Sol) e Küri (Lua), e passaram a ser utilizadas para simbolizar status, funções sociais e a conexão com os ancestrais. Além de terem uma função estética e cerimonial, as pinturas distinguem guerreiros, caciques e outros membros importantes da comunidade.[3]

Tipos de Pinturas

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Os yawalapitis possuem uma grande variedade de pinturas corporais, cada uma representando elementos naturais ou espirituais. Entre os principais tipos, destacam-se:

  • Asa de borboleta;
  • Onça (Yanumaka Iyana);
  • Gavião real;
  • Escama de peixe;
  • Trilha de formiga;
  • Pintura de alma;
  • Casca de jabuti;
  • Peixe voador e gaivota;
  • Sucuri e cascavel;

Cada pintura é utilizada em momentos específicos, como cerimônias de passagem, combates e celebrações espirituais. Seu uso é regulamentado pelos anciãos, que transmitem os significados e técnicas de aplicação para as novas gerações.[3]

Ritual do Guerreiro

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Segundo o cacique Aritana Yawalapiti, no passado não existiam pinturas corporais nem rituais estruturados de formação de guerreiros e caciques. Kami e Küri decidiram criar o primeiro grande ritual sagrado e após isso, desenvolveram as pinturas para marcar a identidade dos líderes e guerreiros da aldeia. Durante esse evento, os dois irmãos divinos idealizaram símbolos específicos, que passaram a ser utilizados em cerimônias de passagem e em homenagens aos ancestrais. Foi nesse contexto que surgiu a pintura Yanumaka Iyana, representando a onça. Essa pintura se tornou um dos símbolos mais importantes do povo yawalapiti, identificando guerreiros e caciques que se destacavam em coragem e liderança. No primeiro ritual Kuarup, Kami e Küri apresentaram essas pinturas à comunidade e estabeleceram regras para seu uso, determinando que apenas aqueles que completassem o processo de formação poderiam recebê-las.[11]

A Preparação do Cacique

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A formação de um guerreiro ou cacique exigia um longo período de aprendizado e isolamento. O jovem candidato passava meses ou anos em reclusão, onde recebia ensinamentos sobre liderança, organização social e tradições culturais. Durante esse tempo, ele não podia interagir com a aldeia e observava o mundo exterior apenas por uma pequena abertura. Além disso, aprendia sobre estratégias de guerra, canto sagrado e confecção de armas e adornos.[12]

O treinamento incluía uma rotina rigorosa: banhos de madrugada, escuta dos discursos dos anciãos e dietas específicas. Somente após essa fase, o jovem recebia sua pintura de guerreiro e poderia ser reconhecido pela comunidade como um líder preparado para defender e representar seu povo.[13]

Situação Atual

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Na década de 1990, o processo de formação dos jovens yawalapiti era marcado por uma rigorosa preparação cultural, com práticas como o uso de pinturas corporais, o fortalecimento físico e o aprendizado de várias habilidades tradicionais. A pintura corporal, por exemplo, era um privilégio reservado apenas aos guerreiros, que passavam por uma reclusão e seguiam um ciclo de aprendizado guiado pelos mestres. Durante esse período, os jovens eram instruídos em conhecimentos como o significado dos símbolos, a origem das pinturas, além de habilidades práticas como o uso de flautas, a construção de casas tradicionais e a confecção de itens culturais, como pentes e máscaras. Esses processos tinham como objetivo garantir a continuidade da cultura e a transmissão dos saberes ancestrais.[4]

Entre 2000 e 2013, mudanças significativas começaram a afetar as tradições yawalapiti, especialmente a prática da pintura corporal. A introdução de influências externas, como a televisão e os modelos ocidentais de moda e comportamento, causou um afastamento dos jovens das práticas culturais. Muitos começaram a usar as pinturas de forma superficial, sem compreender seu significado e a complexidade dos rituais associados a elas. As tintas artificiais passaram a ser preferidas por sua facilidade de remoção, e a participação em cerimônias e rituais diminuiu. Esse enfraquecimento nas práticas culturais resultou em uma perda significativa de identidade e saberes tradicionais entre os jovens yawalapiti, o que tem gerado preocupação entre os mais velhos.[4]

Situação Sociolínguistica

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Atualmente, a língua yawalapiti está em risco de desaparecer, com apenas alguns falantes fluentes e poucos jovens que ainda mantêm o conhecimento. A maioria dos yawalapiti fala outras línguas, como mehinako, wauja, kuikuro, kalapálo e kamaiurá, além do português. Existem apenas três falantes fluentes da língua yawalapiti, juntamente com quatro lembradores. Esse afastamento e a presença de cônjuges de outras etnias dificultam a transmissão da língua para as novas gerações.[5]

Apesar disso, há sinais de esperança, pois alguns jovens estão demonstrando interesse em aprender a língua yawalapiti, o que pode ajudar a preservar o idioma. Em algumas situações, os yawalapiti ainda falam sua língua com os mais jovens, mas, geralmente, os jovens respondem em línguas como o kamaiurá, kalapálo ou kuikuro. Além disso, alguns membros da comunidade, como o autor e seu primo Walamatíu, utilizam o Método Mestre e Aprendiz para promover o aprendizado da língua e, assim, tentar reviver a fluência entre os falantes.[5]

História da Documentação

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O primeiro estudo linguístico da língua yawalapiti foi realizado por Mitzila Izabel Ortega Mujica, em sua dissertação de mestrado Aspectos Fonológicos e Gramaticais da Língua Yawalapíti (Aruák) de 1992, parte do “Projeto Documentação e Descrição das Línguas do Parque Indígena do Xingu”, coordenado pela Lucy Seki. Esse estudo aborda aspectos fonológicos e características tipológicas da língua, como classificadores, afixos derivacionais e o sistema pronominal.[14]

Mais tarde, Renata Gérard Bondim também organizou um material linguístico coletado em 1970, publicado em Estudo Sincrônico de Línguas Indígenas do Alto Xingu de 2019, que inclui um vocabulário extenso e paradigmas verbais e nominais, com dados coletados na aldeia yawalapiti, incluindo a colaboração do Cacique Aritana. Esses estudos, embora não contenham gravações sonoras, são fundamentais para a documentação e preservação da língua, abrangendo áreas como partes do corpo, alimentação, animais e rituais.[14]

Tapi Yawalapiti desenvolveu pesquisas sobre a língua yawalapiti e sua relação com a identidade cultural de seu povo. Sua tese de mestrado, Documentação e Descrição da Língua Yawalapíti (Aruák): uma língua que não deve morrer (2021), foi uma importante referência para a preservação do idioma, abordando aspectos fonológicos e gramaticais.[15]

Yawalapitis notáveis

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  • Cacique Aritana Yawalapiti (1949-2020)[16] - Presidente do Instituto de Pesquisa Etno Ambiental do Xingu (IPEAX).[17]
  • Cacique Tapi Yawalapiti - filho do cacique Aritana Yawalapiti, Vice-Presidente do Instituto de Pesquisa Etno Ambiental do Xingu (IPEAX)[18] de 2011 a 2014, e autor de dissertação de mestrado sobre a língua iaualapiti.[19]
  • Watatakalu Yawalapiti - ativista indígena, defensora da Amazônia e dos direitos das mulheres indígenas.[20]
  • Pirakumã (Piracumã) Yawalapiti (1955-2015), foi Chefe do Centro de Cultura Indígena de Canarana.[21][22]
 
Watatakalu Yawalapiti durante audiência pública da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) no Senado Federal do Brasil em 2020
 
Piracumã Yawalapiti no Plenário do Senado Federal em 2015


Referências

  1. a b c d e f g h Instituto Socioambiental (ISA). «Yawalapiti - Povos Indígenas no Brasil». pib.socioambiental.org. Consultado em 4 de junho de 2024 
  2. Coutinho Jr., Walter (30 de maio de 2017). «Parecer Técnico Nº 450/2017- Secretaria de Apoio Pericial do Ministério Público Federal: Demarcação de Terras Indígenas –Atualização e Conferência da Listagem Geral de Terras Indígenas» (PDF). Ministério Público Federal. Consultado em 4 de junho de 2024 
  3. a b c d e Yawalapíti 2021, p. 26.
  4. a b c Yawalapíti 2021, pp. 35-36.
  5. a b c Yawalapíti 2021, p. 36-37.
  6. Instituto Socioambiental. «Quadro Geral dos Povos». Enciclopédia dos Povos Indígenas no Brasil. Consultado em 19 de setembro de 2012 
  7. «Yawalapiti - Povos Indígenas no Brasil». Instituto Socioambiental. 21 de junho de 2018. Consultado em 4 de junho de 2024 
  8. a b c Yawalapíti 2021, p. 23.
  9. a b Yawalapíti 2021, p. 24.
  10. a b Yawalapíti 2021, p. 25.
  11. Yawalapíti 2021, pp. 27-29.
  12. Yawalapíti 2021, p. 29.
  13. Yawalapíti 2021, p. 30.
  14. a b Yawalapíti 2021, pp. 37-38.
  15. Yawalapíti 2021, p. 16.
  16. Yawalapiti, Tapi (9 de novembro de 2020). «Tapi Yawalapiti: "Meu pai morreu lutando pelos povos indígenas, defendendo a terra"». Brasil de Fato. Consultado em 3 de junho de 2024 
  17. Correio Braziliense (5 de agosto de 2020). «Morre de covid cacique Aritana Yawalapiti, ativista de direitos indígenas». Acervo. Consultado em 3 de junho de 2024 
  18. «Currículo Lattes: Tapi Yawalapiti». buscatextual.cnpq.br. Consultado em 3 de junho de 2024 
  19. Yawalapíti, Tapi (2020). Documentação e descrição da língua yawalapíti (aruák): uma língua que não deve morrer (Dissertação de Mestrado em Linguística). Brasília: Universidade de Brasília. Consultado em 3 de junho de 2024 
  20. «Watatakalu Yawalapiti — Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo». www.iea.usp.br. Consultado em 4 de junho de 2024 
  21. Nabuco, Pedro. «O alerta de Pirakumã». ERMIRA. Consultado em 4 de junho de 2024 
  22. «Morre aos 60 anos Cacique Pirakuman Yawalapiti». Fundação Nacional dos Povos Indígenas. 24 de agosto de 2015. Consultado em 4 de junho de 2024 

Bibliografia

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Ligações externas

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